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 A filosofia teve um papel relevante no início da psicanálise, na medida em que Sigmund Freud estava preocupado em fornecer uma base sólida para a nova ciência. Nas reuniões das quartas-feiras à noite na Sociedade Psicanalítica de Viena, Freud fazia a suposição de que o inconsciente poderia ter algo em comum com a coisa em si, de Immanuel Kant. Afinal, ambos são uma realidade que está por detrás dos fenômenos que aparecem para a nossa consciência. Quando Freud foi apresentado a Otto Rank pela primeira vez, encontrou nele um jovem entusiasta da filosofia e da psicanálise, e que tinha todas as condições para fazer uma ponte da psicanálise com a filosofia, abarcando igualmente a literatura e a arte. Assim, Freud custeou os estudos de Rank, até ele obter o seu doutoramento em filosofia. 

Porém, Freud considerou que era mais apropriado para a psicanálise permanecer dentro do paradigma médico, ao mesmo tempo em que Otto Rank firmava a sua compreensão do mundo nas filosofias de Friedrich Nietzsche, Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer, sem abandonar a atitude terapêutica criada por Freud, da “cura pela palavra”. Nos livros de Rank, temos que o que fundamenta a existência do mundo e da vida é a vontade, sendo esta a contribuição de Schopenhauer. A vontade é um conceito mais abrangente do que o desejo, e é o motor da vida, incluindo a vida do ser humano. Porém, Schopenhauer a via como negativa, pois é fonte de dor – uma influência do hinduísmo e do budismo em sua filosofia. Nietzsche, em oposição, vai dizer que a vida precisa ser uma afirmação incondicional da vontade – daí a sua admiração pela tragédia grega, onde Apolo se junta a Dionísio para convidar a plateia a apreciar a beleza da vida, mesmo com as suas dores, crueldades e dificuldades. Portanto, Otto Rank vai considerar que os verdadeiros valores humanos são os valores da afirmação da vida. Porém, ele vai perceber que a vontade vai, inicialmente, aparecer como compulsão, e que isso significa sofrimento. Com a ajuda de Kant, ele percebe que o ser humano precisa construir a sua dignidade a partir de seu interior, mas a vontade, assim em seu estado bruto, é o Dionísio Bárbaro – é preciso que venha Apolo, capaz de ensinar sobre a elegante proporção, para que ele se transforme no Dionísio Helênico. A junção de Apolo e Dionísio torna a vida possível e bela por meio da arte, ou seja, por meio da criação simbólica, que se torna, igualmente, um meio de afirmação da vida, com a cultura. Para essa afirmação, fica claro que o esforço terapêutico e pedagógico não se resume apenas em permitir a expressão da vontade, mas, igualmente, abarca a tarefa do abandono da dolorosa compulsão em prol do exercício do livre arbítrio. É um processo de construção da pessoa. Nesse processo, a pessoa não está sozinha, pois tem a seu dispor o repertório da cultura: a arte, o simbolismo, a mitologia, a religião etc., que lhe capacitam a fazer as escolhas que são possíveis para um ser que, apesar de suas limitações, se reconhece como tendo o uso da razão. Assim, a moralidade existe a prioricomo uma afirmação da vida, que se efetiva como uma proteção da subjetividade e de seus valores. Ao comentar a afirmação de Kant sobre as duas coisas magníficas, “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”, Rank nos coloca que não devemos pensar que nossa lei moral é um reflexo de leis exteriores que se impõe a nós, mas que essa beleza e coerência que admiramos no mundo são uma projeção das coisas que existem a priori em nós, mas das quais duvidamos – ou seja, ficamos céticos sobre nós próprios, e tendemos a considerar falsa a busca da dignidade, que é uma verdade em nós. Nós nos alienamos, e entregamos às efêmeras ideologias da sociedade o juízo sobre o valor da nossa dignidade. Assim, é preciso não apenas ensinar o ser humano a voltar a querer, mas, também, a voltar a acreditar: “A psicoterapia não deveria se envergonhar de seu aspecto filosófico, estando na posição de oferecer àquele que sofre a filosofia que ele necessita, ou seja, a fé em si próprio.” – Otto Rank